

Cláudio da Silva
Da Ásia para a Oceania
Essa aproximação com a Papua-Nova Guiné começou em 2011, ainda no Japão, por meio de um projeto educativo no qual meus estudantes passaram a trocar cartas com alunos da Madina Primary School, uma escola localizada em uma comunidade Nalik, na província de New Ireland. A correspondência entre as duas escolas continuou durante os anos seguintes e foi, por algum tempo, minha principal forma de contato com a escola e com a comunidade.
Em 2014, quando deixei o Japão, viajei pela primeira vez à Papua-Nova Guiné. Queria conhecer pessoalmente a escola, os estudantes e a comunidade com os quais, até então, havia me relacionado à distância. Essa primeira viagem deu outra dimensão a uma relação que havia começado três anos antes por meio das cartas.
Foi nesse contato mais próximo com a comunidade Nalik que meu interesse pelas aves ganhou também outro significado. Nas conversas e atividades realizadas nas aldeias, elas apareciam associadas aos clãs, às histórias e canções, mas também a conhecimentos sobre o ambiente e a situações da vida cotidiana. As aves que eu conhecia principalmente a partir da Biologia começavam, naquele contexto, a me aproximar de outras formas de conhecê-las e compreendê-las.
Essa experiência abriu caminho para uma nova etapa. Entre 2015 e 2016, retornei à província de New Ireland para desenvolver, com a escola e a comunidade, minha pesquisa de mestrado em Educação Social, Desenvolvimento e Dinâmicas Locais, na Universidade de Coimbra. O trabalho, intitulado Aves na cultura Nalik: (re)Conhecendo a voz da comunidade por meio da investigação-ação, foi desenvolvido de forma participativa e aprofundou uma relação que havia começado alguns anos antes com a troca de cartas.
A pesquisa sobre as aves acabou trazendo também outras questões sobre educação, conhecimentos locais e as relações entre escola e comunidade, que passariam a ocupar um espaço cada vez maior nos trabalhos que desenvolvi posteriormente em New Ireland.


Ao mesmo tempo, a educação foi ocupando um espaço cada vez maior na minha trajetória. Atuei como professor de Ciências e Biologia no Brasil e, mais tarde, no Japão, onde vivi por nove anos e lecionei para estudantes brasileiros em escolas voltadas às comunidades de imigrantes. Viver no Japão e trabalhar diariamente com estudantes e famílias que construíam suas vidas entre diferentes línguas, referências culturais e formas de pertencimento ampliou meu interesse pelas relações entre educação e cultura.
Foi nesse período que a Papua-Nova Guiné entrou pela primeira vez na minha trajetória. O que começou a partir de encontros e interesses que, naquele momento, pareciam distantes do caminho iniciado anos antes na Biologia acabaria me levando a outro contexto, a outras perguntas e, mais tarde, à pesquisa etnográfica. Curiosamente, também foi nesse novo percurso que as aves voltariam a aparecer, já não apenas como animais que me interessava observar e estudar, mas como parte das histórias, dos conhecimentos e das relações que começaria a conhecer na Papua-Nova Guiné.




Máscara de dança Tatanua (Nit) da província de New Ireland, utilizada durante cerimônias Malagan. Acervo de exposição do Museu de Etnografia de Budapeste, Hungria (Volker, 2019).
Em uma atividade prática, durante uma aula de Ciências para meus estudantes da Escola Brasileira Professor Kawase, Ogaki, Japão (2012).
Manejando uma coruja suindara (Tyto furcata), durante o período em que trabalhei na ONG Associação Mata Ciliar, Jundiaí, São Paulo (2004).


Durante atividade com estudantes da Madina Primary School, província de New Ireland (Volker, 2016).




Após a conclusão do mestrado, em 2017, continuei retornando à Papua-Nova Guiné para desenvolver projetos com outras comunidades da província de New Ireland. Nesse percurso, minha pesquisa passou a se concentrar cada vez mais nas relações entre educação, línguas e conhecimentos indígenas.
Embora a escola tenha permanecido como um espaço importante da minha pesquisa, grande parte do trabalho acontece também fora dela, na convivência nas aldeias, nas conversas e nas atividades cotidianas com estudantes, docentes, pessoas mais velhas, lideranças e demais membros das comunidades. Essas experiências ampliaram as questões que passaram a orientar minha pesquisa, especialmente sobre como conhecimentos construídos e transmitidos nas comunidades são reconhecidos no espaço escolar e sobre as possibilidades de aproximação entre diferentes formas de conhecer, ensinar e aprender.
Essas questões orientam atualmente meu doutorado em Ciências da Educação na Universidade do Porto, no qual pesquiso a integração dos conhecimentos indígenas no currículo escolar e as possibilidades de diálogo entre escola e comunidade.
Da experiência de campo à pesquisa atual


Apresentando meu trabalho para estudantes da Kansai University, Japão (Volker, 2016).
Durante evento realizado na Langenia Primary School, província de New Ireland (Volker, 2024).
Sou Cláudio da Silva, pesquisador e educador com formação e experiência nas áreas de Biologia, Educação e Ciências Sociais. Nasci no Brasil e atualmente vivo em Coimbra, Portugal.
Minha trajetória profissional começou nas Ciências Biológicas e, ao longo dos anos, foi se aproximando cada vez mais da educação e, posteriormente, da pesquisa etnográfica. Essas mudanças não aconteceram de forma planejada ou como etapas separadas. Foram sendo construídas a partir dos lugares onde vivi, das experiências profissionais que tive e, principalmente, das pessoas e contextos com os quais fui me envolvendo.
No Brasil, trabalhei em zoológicos e organizações não governamentais, desenvolvendo atividades de educação ambiental, pesquisa em ornitologia e manejo de animais selvagens. Entre os diferentes campos da Biologia, as aves sempre despertaram em mim um interesse especial. Esse fascínio começou ainda na infância, quando participava de clubes de observação, e continuou durante minha formação e atuação como biólogo, quando passei também a estudá-las na natureza. Observar aves, reconhecer espécies e procurar compreender seus comportamentos fazia parte, naquele período, da maneira como eu me aproximava e aprendia sobre os ambientes onde trabalhava.


Foto: Volker, 2016


da Silva, C., Volker, C. A., Pereira, F., & Amorim, J. P. (2026). Bridging Indigenous knowledges and formal education through a community-led cultural initiative. Diaspora, Indigenous, and Minority Education. No prelo.
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da Silva, C. (2010). Alterações na comunidade de aves do Morro de Araçoiaba (Floresta Nacional de Ipanema, FLONA – Iperó, SP). Revista Conhecimento Online, 2, 32–67. https://doi.org/10.25112/rco.v2i0.145
Foto: Volker, 2017
Perfil acadêmico e pesquisa
ORCID - Publicações, projetos e atividades de pesquisa
ResearchGate - Publicações, projetos e atividades de pesquisa
ESfO (European Society for Oceanists) - Perfil no Pacific-studies.net
CIIE - Centro de Investigação e Intervenção Educativas
Perfil na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
CiênciaVitae - Currículo científico e acadêmico
Algumas das minhas publicações selecionadas
Cláudio da Silva
Pesquisa, educação e trabalho de campo na Papua-Nova Guiné.
claudio@clausilva.eu
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