
Bilas Peles:
Uma expressão visual da relação com o ambiente
Bilas Peles é uma expressão em Tok Pisin, língua amplamente utilizada na Papua-Nova Guiné e principal meio de comunicação entre pessoas de diferentes grupos linguísticos em muitas regiões de New Ireland. A expressão reúne duas palavras: bilas, associada à ideia de adorno, enfeite e beleza, e peles, forma encontrada localmente para ples, que significa “lugar” ou “terra”.
Bilas também é a palavra utilizada para os adornos e elementos que compõem as vestimentas usadas em festas e cerimônias. Nesse sentido, Bilas Peles pode ser compreendido literalmente como “terra adornada” ou “lugar enfeitado”. Em New Ireland, no entanto, a expressão também é utilizada para falar da beleza do próprio lugar — de suas ilhas, florestas, rios, praias, recifes e da diversidade de formas e cores encontradas no ambiente.
As fotografias apresentadas nesta página partem dessa expressão para mostrar um pouco dessa diversidade. São imagens registradas durante diferentes períodos em que estive em New Ireland e que revelam desde grandes paisagens até pequenos animais, plantas e outros elementos que muitas vezes passam despercebidos no cotidiano.
Estrela do mar com chifres (Protoreaster sp.), espécie muito comum nas águas rasas e arenosas de New Ireland (Foto: da Silva, 2024).


A paisagem de New Ireland reúne florestas tropicais, rios, praias e extensos recifes de coral, distribuídos por ilhas que abrigam uma rica diversidade de animais e plantas, incluindo espécies que são endêmicas dessa região.
Essa diversidade também faz parte da vida cotidiana das comunidades, seja nas práticas relacionadas à pesca, à agricultura e ao uso das plantas, seja nos conhecimentos e histórias transmitidos entre as gerações.
Territórios, histórias e modos de vida






Ao entardecer, especialmente durante a maré baixa, é comum encontrar pescadores percorrendo os recifes da costa de New Ireland com suas lanças, em busca de peixes nas águas rasas (Foto: da Silva, 2022).
Estrela-do-mar-azul (Linckia laevigata), comum em águas rasas nas ilhas de New Ireland (Foto: da Silva, 2019).
Lagarto do gênero Emoia repousando sobre um galho durante a noite. Esses pequenos lagartos são frequentemente encontrados entre a vegetação das aldeias e áreas de floresta (Foto: da Silva, 2023).




Percevejo-joia (Scutelleridae), suas belas cores metálicas são características desse grupo de insetos (Foto: da Silva, 2016).


Durante o período em que estive desenvolvendo pesquisa com o povo Nalik, ouvi diferentes relatos sobre como a observação das aves faz parte da vida cotidiana. Em conversas com lideranças e moradores locais, algumas espécies foram descritas como timekeepers, ou marcadores do tempo, porque seus cantos costumam ser ouvidos em determinados momentos da noite e da madrugada. Antes mesmo do amanhecer, essas vocalizações podem indicar a passagem das horas, algo que, segundo me explicaram, vem sendo observado ao longo de gerações.
Um desses exemplos é o zizilipak, nome Nalik para o rabo-de-leque (Rhipidura leucophrys). Durante as conversas nas aldeias de Madina e Luaupul, moradores mencionaram que seu canto costuma ser ouvido ainda de madrugada, frequentemente entre três e quatro horas da manhã. Uma ave bastante comum nas proximidades das casas torna-se, assim, uma referência para reconhecer o tempo a partir da observação de seus hábitos.
Papagaio-eclecto (Eclectus roratus), exemplar macho, fotografado em New Ireland. A espécie apresenta um acentuado dimorfismo sexual: os machos possuem predominantemente plumagem verde, enquanto as fêmeas apresentam principalmente tons de vermelho e azul (Foto: da Silva, 2014).
Timekeepers:
o tempo nos ritmos do ambiente
Rabo-de-leque (Rhipidura leucophrys). Esta ave, além de ser considerada uma timekeeper, também aparece em narrativas e canções locais. Em algumas dessas canções, o Rabo-de-leque é lembrado como um mensageiro dos antepassados e do mundo espiritual (Photo: da Silva, 2016).




Rã-arborícola (Litoria infrafrenata) repousando sob as folhas de um arbusto durante o dia. A espécie, uma das maiores entre as rãs arborícolas, é bastante comum nas ilhas de New Ireland. Segundo moradores com quem conversei, quando um animal desse é avistado, isso pode ser interpretado como sinal de que uma mensagem importante está por chegar (Foto: da Silva, 2016).
Ambiente, histórias e conhecimentos
Rio Fissoa, na aldeia de Fissoa. Importante ponto de água doce para os moradores da região, o rio faz parte da rotina da comunidade e é utilizado tanto em atividades cotidianas quanto como espaço de encontro e lazer (Foto: da Silva, 2022).
Animais, plantas e outros elementos do ambiente aparecem em muitas histórias, canções e conhecimentos compartilhados nas comunidades. Alguns estão ligados aos nomes e às histórias dos lugares; outros remetem aos antepassados, aos clãs e às relações que as pessoas mantêm com determinados espaços. Há animais associados à ancestralidade de um clã, assim como árvores, riachos, cavernas e outros lugares presentes nas narrativas contadas pelos moradores. Plantas e animais também fazem parte de conhecimentos aprendidos e compartilhados no cotidiano, no cultivo dos jardins, na pesca, no preparo dos alimentos e nas formas locais de reconhecer e nomear aquilo que existe ao redor das aldeias.
Muitas das conversas que enriqueceram o trabalho de campo começaram justamente a partir desses encontros cotidianos. Uma ave perto das casas, uma planta encontrada no caminho, uma caminhada até um jardim ou a passagem por um riacho ou uma praia podiam levar a uma história, ao nome de um lugar, à lembrança de um antepassado ou à explicação de um conhecimento local. Nessas situações, o ambiente não surgia apenas como paisagem, mas participava das maneiras pelas quais histórias, memórias e conhecimentos sobre os lugares eram compartilhados.




Flor de Barringtonia asiatica. As flores dessa árvore se abrem ao anoitecer e duram poucas horas. Esse é o tempo suficiente para serem visitadas por morcegos, responsáveis por sua polinização. Diferentes partes da planta contêm saponinas, substâncias venenosas, tradicionalmente utilizadas em algumas formas de pesca (Foto: da Silva, 2022).
Ilha Ienusa, na região habitada pelo povo Nochi. A ilha está associada a uma história tradicional sobre um porco chamado Luganga, que foi registrada no livro coletivo Voices of New Ireland: Kun and Nochi Wisdom, desenvolvido durante minha pesquisa de doutorado (Foto: da Silva, 2022).
Cláudio da Silva
Pesquisa, educação e trabalho de campo na Papua-Nova Guiné.
claudio@clausilva.eu
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