
Malagan: ancestralidade e vínculo
com o território
O Malagan ocupa um lugar central na vida social e cultural das comunidades do norte da província de New Ireland. Embora seja conhecido em outras regiões da Papua-Nova Guiné e também internacionalmente, principalmente por suas esculturas e máscaras cerimoniais, o Malagan envolve um conjunto muito mais amplo de relações entre os clãs, ligadas à memória dos antepassados, às obrigações entre famílias, à circulação de bens e à transmissão de conhecimentos.
Durante os períodos em que tenho trabalhado em New Ireland, o Malagan apareceu de diferentes formas nas conversas, histórias e atividades realizadas nas aldeias e escolas. Nos projetos que resultaram na produção dos livros comunitários com os povos Nalik, Nochi e Kun, por exemplo, referências às cerimônias, danças e narrativas relacionadas ao Malagan surgiram entre os conhecimentos que as próprias pessoas consideravam importantes registrar e transmitir.


Escultura Malagan do acervo do Übersee-Museum em Bremen, Alemanha (Foto: da Silva, 2015).


Quando os clãs se encontram
As cerimônias Malagan estão relacionadas à morte e à memória de pessoas da comunidade e podem acontecer muito tempo depois do falecimento. Sua preparação pode se estender por meses ou anos, mobilizando famílias e clãs, além de parentes que chegam de outras aldeias, ilhas, províncias e, algumas vezes, de outros países.
Ao participar de diferentes Malagan, pude acompanhar parte desse processo e perceber como diferentes dimensões da vida comunitária se encontram durante uma mesma cerimônia. A preparação e a distribuição de alimentos, os discursos, as trocas, os cantos e as danças acontecem ao mesmo tempo em que relações e obrigações entre famílias e clãs são lembradas e reafirmadas.
Os clãs ocupam uma posição central nesse processo. Em New Ireland, as relações de descendência e pertencimento são organizadas de forma matrilinear e envolvem direitos e responsabilidades relacionados à terra, aos casamentos, às trocas e às próprias obrigações cerimoniais. Assim, embora a morte esteja relacionada à realização do Malagan, a cerimônia também reafirma relações entre aqueles que permanecem e as gerações que virão.
Cerimônia Malagan realizada nos arredores de Kavieng, capital da província de New Ireland (Foto: da Silva, 2019).


Grupo de maimai durante uma cerimônia Malagan na aldeia Nochi de Tandis, província de New Ireland. Maimai é o termo utilizado para designar lideranças tradicionais dos clãs, que ocupam posições de autoridade e assumem responsabilidades importantes na vida social e cerimonial das comunidades.
Durante ocasiões como o Malagan, os maimai podem ser reconhecidos também por elementos de suas bilas. Entre eles está o kapkap, ornamento tradicional usado como colar e geralmente pendurado sobre o peito, como pode ser observado em alguns dos homens nesta fotografia (Foto: da Silva, 2023).
Mulheres durante uma apresentação de dança em uma cerimônia Malagan, na aldeia Nochi de Tandis. Folhas, flores e outros elementos vegetais compõem os adornos utilizados durante a apresentação (Foto: da Silva, 2023).


Durante os Malagan que acompanhei, algumas das expressões que mais chamaram minha atenção foram as danças e a maneira como elas mobilizam as pessoas ao redor da cerimônia. Entre elas estão o La Maani, que pude acompanhar entre os Nalik, e o Nit, entre os Nochi e Kun. São momentos em que as máscaras, as bilas (adornos), e os cantos se encontram no ritmo de garamut e no movimento dos dançarinos, diante das pessoas que acompanham a apresentação.
O Malagan em movimento




La Maani: aves e cultura Nalik
La Maani, expressão que em Nalik pode ser compreendida como “no pássaro” ou “com o pássaro”, é uma dança cerimonial apresentada durante o Malagan. Para sua realização, uma plataforma especial é construída, onde os dançarinos se apresentam acompanhados pelo ritmo do garamut, instrumento de percussão feito a partir de um tronco de madeira e tocado com golpes de um longo bastão de madeira.
Os dançarinos usam bilas — termo em Tok Pisin para adornos — confeccionadas com fibras da casca do coco e tingidas com raiz de cúrcuma. Durante a apresentação, realizam movimentos que lembram os de aves e carregam na boca pequenos bicos entalhados em madeira, chamados a mun faat maani em Nalik (a vaat maani, no singular).
Segundo anciãos Nalik com quem conversei, o La Maani é uma dança cuja continuidade se encontra ameaçada. Sua realização depende de conhecimentos que vão além da própria dança e incluem a preparação das bilas, o entalhe dos objetos utilizados e diferentes momentos rituais. Atualmente, poucas pessoas ainda dominam parte desses conhecimentos.
Preparação para o La Maani
Dançarinos durante a preparação para uma apresentação do La Maani. Parte das bilas utilizadas na dança é confeccionada com fibras retiradas da casca do coco, que recebem sua coloração amarela a partir da raiz da cúrcuma. Durante a preparação, a raiz é mastigada e, em seguida, o líquido produzido é cuspido diretamente sobre as fibras, tingindo-as aos poucos até adquirirem a tonalidade característica que aparece nas fotografias.
Outro elemento utilizado pelos dançarinos é o bico entalhado e pintado em madeira (a vaat maani), visível na primeira imagem. Durante a apresentação, ele é mantido na boca e acompanha os movimentos da dança, muitos deles associados aos movimentos das aves (Fotos: da Silva, 2023).


O ritmo do garamut
O garamut é um instrumento de percussão tradicional feito a partir de um tronco de madeira escavado e tocado com bastões também de madeira. Durante o Malagan e outras cerimônias locais, seu som acompanha cantos e danças e ajuda a marcar o ritmo das apresentações. Nesta fotografia, dois homens tocam o garamut durante uma cerimônia Malagan (Foto: da Silva, 2023).




O Nit, como é chamado na língua Nochi, ou Tatanua, em Tok Pisin, é uma das danças apresentadas durante as cerimônias Malagan e é especialmente conhecida pelas máscaras características usadas pelos dançarinos. Exemplares antigos de máscaras semelhantes podem ser encontrados hoje em coleções de diferentes museus europeus, muitas delas incorporadas a essas coleções durante o período colonial.
Durante os Malagan que acompanhei, as apresentações do Nit costumavam reunir muitas pessoas ao redor do espaço da dança para observar os dançarinos, seus movimentos e as bilas coloridas, acompanhados por cantos marcados pelo ritmo do garamut.
Dançarinos durante apresentação do La Maani na província de New Ireland (Fotos: da Silva, 2023).
Nit: a máscara em movimento






Máscara Nit antiga. Acervo do Übersee-Museum em Bremen, Alemanha (Foto: da Silva, 2024).
Dançarinos durante uma dança Nit, na aldeia Nochi Tandis, província de New Ireland (Fotos: da Silva, 2023).
Cláudio da Silva
Pesquisa, educação e trabalho de campo na Papua-Nova Guiné.
claudio@clausilva.eu
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